novembro de 2026
A dignidade humana no olhar do fotojornalista e documentarista peruano Jaime Rázuri
Federico Murua

O mar de La Punta, no Callao,Perú, possui um cinza obstinado, uma densidade salina e nebulosa que se adere à pele antes mesmo que a memória aprenda a nomeá-la. Nascer nessa estreita língua de terra em 1958 significou, para Jaime Rázuri, aprender a olhar a partir da penumbra, contemplar a imensidão do oceano não como um horizonte infinito e aberto, mas como um limite drástico onde a luz deve ser arrancada com paciência do sufocante manto do nevoeiro. Nessa geografia de umidade pertinaz e navios espectrais gestou-se um dos olhares mais lúcidos, poéticos e dolorosos do fotojornalismo peruano e latino-americano. A câmera não foi para Rázuri um simples artifício técnico nem um passaporte para a aventura jornalística; transformou-se, desde seus primeiros anos de formação na Universidade de Lima e sua posterior passagem pelo Instituto de Estudos Fotográficos da Catalunha, em um bisturi de prata, em um instrumento de revelação ética capaz de esculpir a dignidade humana em meio ao naufrágio social e às geometrias da violência. Ao longo de sua vasta trajetória como repórter fotográfico da agência France Presse, Rázuri exerceu a fotografia como um ato de constante resistência moral contra o esquecimento. Durante décadas, sua lente foi a testemunha incômoda de um país que sangrava entre as feridas do conflito armado interno, a instabilidade política e as lacunas históricas da marginalização. No entanto, ao contrário dos mercadores do apelo sensacionalista que buscam no dor alheia o brilho apelativo do sensacionalismo, o olhar de Rázuri esteve sempre habitado por um pudor compassivo, uma espécie de ternura militante. Seu trabalho não busca capturar a vítima em sua derrota definitiva, mas sim surpreendê-la nessa brevíssima fresta onde a resistência vital se manifesta apesar da intempérie. Fotografar a guerra ou o descontentamento social não foi para ele uma mera rotina profissional, mas sim uma imersão nas entranhas da condição humana, uma geografia marcada pelas ausências onde o disparo do obturador atuava como um refúgio diante da densa escuridão do horror. Essa mesma lucidez, treinada no calor da imprensa diária, encontrou sua expressão mais profunda e conceitual em seus projetos pessoais, nos quais o olho do fotógrafo transcende a imediatez da manchete para penetrar nos sedimentos da identidade cultural e da doença. Em 1991, no ápice de uma crise histórica que ameaçava pulverizar o tecido social do Peru, Rázuri apresentou Identidad y mestizaje (Lima Hoy). Nesse corpus visual, o autor adentrou o coração pulsante de uma transformação irreversível: o processo de miscigenação em um contexto de desenvolvimento ferozmente centralista e o florescimento irreprimível da “choledad” na capital. Lima, essa urbe desmedida que durante séculos tentou se olhar no espelho de uma aristocracia colonial distante, é dissecada por Rázuri para revelar como as margens andinas tomaram pacificamente o centro. A ironia desliza sutilmente entre seus enquadramentos: as promessas de uma modernidade ocidental que nunca terminou de se democratizar colidem com a vitalidade subterrânea da migração. A “choledad”, longe de ser uma simples categoria sociológica ou um estigma de origem, manifesta-se sob a luz de Rázuri como uma estética vibrante, uma forma de habitar o espaço urbano com orgulho, cor e audácia criadora. Seus retratos capturam o choque e a fusão: a saia indígena e o néon, a arquitetura chicha erguendo-se sobre a cinzenta arquitetura colonial, a invenção diária da sobrevivência nas periferias. Os personagens de Identidad y mestizaje não pedem licença para existir na Lima centralista; eles a reivindicam, a transformam e a reescrevem por meio de seus gestos, comércios e festas. A câmera de Rázuri atua aqui como um espelho no qual a sociedade peruana é forçada a se reconhecer em sua heterogênea diversidade, demonstrando que o verdadeiro rosto do país não estava nos salões da elite, mas na maré imparável que reinventava a cidade a cada manhã. Pouco depois, entre 1994 e 2007, Rázuri empreendeu um dos projetos mais comoventes e rigorosos da fotografia peruana contemporânea: sua investigação visual sobre o HIV/AIDS. Em uma época em que a epidemia era tratada pela sociedade com o chicote do estigma, do pânico moral e da rejeição punitiva, o fotógrafo decidiu entrar com sua câmera nos recintos do silêncio, nas enfermarias hospitalares empobrecidas e na intimidade daqueles que haviam sido sentenciados à invisibilidade. Com um tom profundamente reflexivo e uma delicadeza avassaladora, acompanhou as pessoas afetadas em seu cotidiano, registrando o avanço do deterioramento físico, mas sobretudo resgatando a insondável beleza dos afetos, da solidariedade e do calor do afago humano na antessala da perda. A metáfora da sombra se subverte nestas imagens: o corpo doente, sistematicamente ocultado pela hipocrisia social, converte-se sob sua lente em uma catedral de fragilidade e coragem. Não há nestas fotografias um voyeurismo impudico; há uma devoção pela vida que transcende o diagnóstico médico para interrogar a sociedade sobre suas próprias misérias éticas, transformando a dor individual em uma interpelação coletiva. O destino, no entanto, costuma tecer tramas amargas para aqueles que dedicam sua existência a registrar a dor alheia. Nos primeiros dias de janeiro de 2007, enquanto cumpria suas funções jornalísticas na Faixa de Gaza — esse estreito território suspenso em um ciclo de cerco e desesperança —, Jaime Rázuri foi sequestrado por um grupo armado ao sair dos escritórios da agência para a qual trabalhava. Durante sete dias intermináveis, o fotógrafo peruano passou bruscamente de sujeito observador a objeto observado, a testemunha muda convertida em moeda de troca geopolítica na vasta carnificina do Oriente Médio. A ironia trágica revelou-se em toda a sua magnitude: o homem que havia dedicado décadas a conferir visibilidade e voz aos cativos da pobreza e da violência encontrava-se de repente privado de sua liberdade, preso na penumbra de um cativeiro absurdo, com a incerteza da morte rondando na escuridão. Sete dias de tensão internacional e vigílias no Peru culminaram com sua libertação são e salvo, mas aquela experiência em Gaza não foi um simples acidente de trabalho; representou uma fresta iniciática, um marco tectônico que alterou para sempre sua percepção sobre a vulnerabilidade, a imagem e a própria existência. Como se precisasse processar os estilhaços daquela e de outras batalhas visuais, o fotógrafo destilou suas vivências, seus fantasmas e seu perambular pelo mundo em um trabalho de maturidade excepcional. Seu fotolivro autobiográfico Como un relámpago en el cielo (2007) ergue- se como um artefato poético que esquiva a narração cronológica linear para adentrar a lógica fragmentária da memória. O título encerra uma metáfora magistral sobre a natureza do fotojornalismo: o disparo da câmera é como esse clarão fulgurante que ilumina de golpe a noite da história, permitindo-nos contemplar por uma fração de segundo a anatomia do caos antes que a penumbra volte a devorar tudo. Nas páginas do livro, dialogam os rostos da Lima migrante com as paisagens desoladas da guerra, os olhares exaustos dos enfermos de AIDS com as frestas das ruas em conflito. Como un relámpago en el cielo não é unicamente o inventário das coberturas de um repórter fotográfico; é, antes de tudo, o testemunho visceral de uma busca espiritual. Em suas sequências, a violência política conversa com as angústias íntimas, e o mapa social do Peru se confunde com a cartografia emocional do próprio autor. Percebe-se um tom de melancolia reflexiva, uma ironia sutil sobre a pretensão do fotógrafo de deter o tempo quando, na realidade, é o tempo que desgasta o olhar de quem observa. Rázuri contempla a si mesmo por meio dos outros, aceitando que cada fotografia tirada ao longo de sua vida foi também um autorretrato involuntário, uma pequena fresta pela qual se filtrava sua própria necessidade de beleza e justiça. Vista em seu conjunto, a trajetória de Jaime Rázuri transcende a mera catalogação documental para se instalar no território da poesia visual e da ética irrenunciável. Desde a humilde névoa de La Punta até o pó escaldante de Gaza, seu trabalho demonstra que a verdadeira fotografia não consiste em chegar primeiro à cena da notícia, mas em saber permanecer nela com empatia quando as luzes da imprensa se apagam. Rázuri conseguiu converter o ato de fotografar em um exercício de revelação onde o claroscuro não é uma simples técnica de laboratório, mas a metáfora definitiva da condição humana: essa constante oscilação entre a luz da dignidade e as sombras da barbárie. Suas imagens permanecem como relâmpagos suspensos na memória coletiva, lembrando-nos de que, enquanto existir um olhar disposto a resgatar a verdade do ser humano, o esquecimento não terá vencido a batalha.
Imagens

Sobre artista
Federico Murua
Federico Murúa. Argentina/Venezuela. 1976. Fotojornalista (CRGV 2017). Licenciado em Educação (UNEG 2004). Fotógrafo Documentarista. Professor de Produção Audiovisual (UNEARTE 2025). Criador de conteúdo sobre Fotografia Latino-Americana. Pesquisador Cultural de Ritmos Afrodescendentes. Professor da Escola de Comunicação Social (UBA 2017). Autor de um livro sobre fotografia latino-americana (2025, em andamento).