julho de 2026

Memoria en Juego

por Silvia Villamil

A memória não é uma estante cheia de fotos paradas. É um tecido feito à mão, um quebra-cabeça que as infâncias ajudam a montar quando perguntam, quando olham, quando brincam. Houve um tempo de silêncio longo, um tempo onde quiseram nos deixar sem contos e sem nomes. Mas a identidade é como uma semente que germina, sempre procura a fresta para encontrar o sol, e as raízes sabem ler o que a boca cala: buscam a água, buscam a memória. Em 24 de março de 1976, as Forças Armadas da Argentina derrubaram o governo constitucional e instauraram uma ditadura cívico-militar que duró até 1983. Não foi apenas um golpe de Estado; foi a implementação de um plano sistemático de terror. Durante este período, o Estado sequestrou, torturou e desapareceu com 30.000 pessoas. Centenas de meninos e meninas foram sequestrados junto a seus pais ou nasceram em centros clandestinos de detenção enquanto suas mães estavam cativas. Esses bebês foram entregues ilegalmente a famílias vinculadas ao regime, apagando seus nomes, seus laços biológicos e sua história. Enquanto o medo paralisava o país, um grupo de mães e avós começou a caminhar em círculos na Praça de Maio, em frente à sede do governo. Reclamavam por seus filhos e, depois, por seus netos. Esta série busca manifestar o triunfo do amor sobre o horror: a imagem de uma criança caminhando de mãos dadas com um lenço branco, construindo memória. A memória é, em definitiva, o brinquedo mais valioso que podemos legar às gerações futuras; porque no seu riso e no seu direito à verdade, eles são o nosso melhor e mais categórico "Nunca Mais".

Imagens

1/12
Silvia Villamil

Sobre a artista

Silvia Villamil

Silvia Fernández Villamil é fotógrafa argentina, com um olhar voltado para as dinâmicas sociais do espaço urbano. Seu trabalho busca dar visibilidade às histórias das pessoas que moldam a identidade coletiva. Também retrata os extraordinários recantos de seu país. Vive na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Instagram: @silviavilla1000