julho de 2026
Marcelo Montecino, da Ditadura Chilena à Revolução Nicaraguense: Mais de 30 Anos de Imagens Latino-Americanas
por Federico Murua

Marcelo Tomás Montecinos Slaughter, nascido em Santiago, Chile, em 15 de junho de 1943, é um fotógrafo cuja obra está enraizada na memória da ditadura chilena e na dura realidade dos conflitos armados na América Latina. Embora sua vida tenha sido marcada pela violência e pela clandestinidade, seu olhar inabalável através da lente permitiu-lhe preservar imagens de uma região que enfrentava processos sociopolíticos complexos e multifacetados. Este ensaio propõe uma interpretação de seu legado baseada em: a experiência da ditadura chilena, que o moldou pessoal e profissionalmente; seu exílio e sua decisão de fotografar guerras e revoluções; e o impacto que essas imagens tiveram na memória coletiva dos países envolvidos e na própria profissão fotográfica. Marcelo, é um fotógrafo cuja obra se enraíza na memória coletiva dos países envolvidos e na arte fotográfica. A biografia de Marcelo Montecinos se desenrola em um Chile marcado pela ditadura de Pinochet (1973-1990), que deixou marcas indeléveis no tecido social e na vida daqueles que ousaram documentar suas brutais consequências. Nesse contexto, Montecinos não apenas testemunhou a repressão, mas também começou a transformá-la em uma linguagem visual que a denunciava, ao mesmo tempo que questionava as condições humanas por trás de cada cena. O assassinato de seu irmão durante esse período tornou-se um ponto de virada pessoal: uma ferida que lhe conferiu uma sensibilidade especial para capturar as tensões entre poder e vulnerabilidade, entre a violência planejada e as memórias que permanecem vivas nas pessoas. Após esse trauma, Montecinos decidiu deixar o país em busca de cenas de luta e resistência em outras partes da América Latina, cenas que revelassem a universalidade dos dilemas humanos diante da violência organizada. Para ele, a fotografia deixou de ser apenas uma técnica documental e tornou-se uma forma de testemunho, uma maneira de dialogar com comunidades frequentemente marginalizadas pela história, mas que, graças à sua câmera, podiam contar sua própria história ao mundo. Na Nicarágua, por exemplo, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) não era apenas um grupo armado, mas um projeto político que, ao desafiar uma ditadura absolutista, buscava remodelar o cotidiano, as expectativas urbanas e as relações internacionais. O processo revolucionário liderado pela FSLN estava intrinsecamente ligado a uma militância que aspirava transformar as estruturas sociais profundamente enraizados, como a distribuição de terras, o acesso à educação e a dignidade das comunidades pobres que foram deixadas de fora dos benefícios do desenvolvimento. Mas essa promessa de mudança foi sempre tingida pela dinâmica complexa de uma região marcada por alianças mutáveis, interesses internacionais e uma guerra civil que não conhecia fronteiras claras entre combatentes e civis. A trajetória revolucionária da FSLN pode ser entendida como um desafio a um regime que combinava a repressão com um tom ideológico que procurava, através da ação organizada, inaugurar uma nova etapa para o país. A clandestinidade, as guerrilhas nas montanhas e as operações urbanas não eram meras táticas militares, eram manifestações de uma ética de resistência que buscava, ao mesmo tempo, dignidade e autonomia para comunidades historicamente despossuídas. Este processo, no entanto, não ocorreu no vácuo. Desenvolveu-se num mapa internacional de alianças e pressões que condicionaram cada avanço: movimentos revolucionários na região, interesses de potências externas e uma competição ideológica que transformou a Nicarágua num banco de testes de ideias e estratégias de mudança. A figura do país em tensão surgiu, em grande medida, da interação entre disciplina e fragilidade. Nos cenários de luta, a FSLN impôs uma disciplina que era, ao mesmo tempo, estratégia e esperança, coordenação entre frentes, coordenação entre ideologia e acção, e uma visão que procurava fazer da luta armada uma plataforma de reorganização social. Mas essa mesma frieza de táctica contrastava com a vida quotidiana daqueles que viviam sob constante pressão: civis que tinham de navegar na incerteza de um conflito que poderia reconfigurar os seus destinos de um dia para o outro. Foi precisamente nesta intersecção entre a acção organizada e a vulnerabilidade quotidiana que emergiu a densidade moral da revolução. O olhar de Montecinos, como sugere o fragmento, encontrou neste cenário um “campo de testes para sua ética visual e sua curiosidade pelas complexidades da guerra civil”. Suas lentes não se limitaram a registrar a violência ou a epopéia dos confrontos; Ele buscou, antes, uma síntese entre grosseria e compaixão. As suas imagens captam a tensão entre a disciplina dos combatentes e a resiliência das comunidades que, face à ameaça, negociaram com a incerteza: a necessidade de se alimentar, de estudar, de manter a dignidade no meio da escassez, da esperança e da possibilidade de um futuro diferente. Neste sentido, a fotografia tornou-se um duplo testemunho, por um lado Por outro lado, prova da realidade brutal e, ao mesmo tempo, testemunho da humanidade que persiste mesmo quando a organização social é subvertida pela guerra. A dinâmica do país nesse período reflecte também a ambivalência de qualquer processo revolucionário: a promessa de libertação e a complexidade das alianças estrangeiras que influenciaram o seu curso. Em suma, Montecinos não é apenas um encerramento de cenas, mas sim um olhar que não se contenta com a denúncia, mas que propõe uma questão ética: o que significa olhar quando a vida dos outros depende da dignidade que ainda é defendida? As suas imagens duplamente testemunhadas – a crueldade da violência e a força silenciosa da humanidade – convidam-nos a reconhecer que a memória não é passiva, mas uma prática de reconhecimento e responsabilidade. Assim, a fotografia revela-se como uma ponte entre a crueza da história e a possibilidade de um amanhã diferente, onde a disciplina de confrontar os corpos dá lugar à resiliência de comunidades que, mesmo em meio à escassez, negociam a possibilidade de alimentar a mente, educar-se e sonhar com um futuro melhor. Legenda das fotos: “Prueba de Vida”, Chile (1973-1990). Marcelo Montecino “Miedo”, Chile (1973-1990). Marcelo Montecino “Las calles de las penas”, Nicaragua (1975-1995). Marcelo Montecino
Imagens

Sobre artista
Federico Murua
Federico Murúa. Argentina/Venezuela. 1976. Fotojornalista (CRGV 2017). Licenciado em Educação (UNEG 2004). Fotógrafo Documentarista. Professor de Produção Audiovisual (UNEARTE 2025). Criador de conteúdo sobre Fotografia Latino-Americana. Pesquisador Cultural de Ritmos Afrodescendentes. Professor da Escola de Comunicação Social (UBA 2017). Autor de um livro sobre fotografia latino-americana (2025, em andamento).