outubro de 2026
Guardianas de la Memoria
Silvia FERNANDEZ VILLAMIL

Nas regiões de altitude do Noroeste Argentino e da região andina, a memória habita a garganta e as mãos das mulheres. As copleras são as guardiãs de uma arte oral milenar, na qual convergem a lírica tradicional espanhola do período colonial e os cantos comunitários dos povos originários. Diante da ausência de registros escritos, a voz humana tornou-se o arquivo vivo do território, transmitindo de mães para filhas a história, as dores, os amores e as resistências de seu povo.
Em suas vozes, as copleras evocam a presença intangível de suas avós e de todas as mulheres que habitaram o vale antes delas. Em seus cantos, não há hierarquias nem palcos. A prática ganha corpo na rueda (ou anata), um círculo sagrado e horizontal onde a fronteira entre quem canta e quem escuta se dissolve. Os corpos adornados com flores, vestidos com saias coloridas, mantas bordadas e chapéus, delimitam fisicamente o espaço ritual: separam um “dentro”, de resistência e identidade coletiva, de um “fora” indiferente ao tempo.
Sustentada pelas mãos calejadas das cantoras, a caja marca um pulso hipnótico que acompanha a poesia de quatro versos. A copla é essencialmente um diálogo, um jogo de chamado e resposta. No fluxo incessante da rueda, que gira imperceptivelmente ao ritmo dos pés sobre a terra, a copla circula de boca em boca. Manter vivo esse canto hoje não é apenas um ato poético; é uma trincheira cultural para preservar a identidade nativa diante de séculos de transformação e esquecimento.
Imagens

Sobre artista
Silvia FERNANDEZ VILLAMIL
Silvia Fernández Villamil é uma fotógrafa argentina que dirige seu olhar às dinâmicas sociais dos espaços urbanos e rurais. Seu trabalho busca dar visibilidade às histórias daqueles que moldam a identidade coletiva. Também retrata os incríveis recantos de seu país. Vive na Cidade Autônoma de Buenos Aires. @silviavilla1000